
Para o dramaturgo Silvio de Abreu, a crítica de TV brasileira é despreparada e opina sobre algo que não domina. Segundo ele, o que foi escrito sobre Passione, que se encerra amanhã, "ficou muito aquém do que o produto merecia".
A seguir, a segunda parte de entrevista concedida com exclusividade ao blog pelo autor da Globo:
R7 - Qual foi o pior de Passione?
Silvio de Abreu - Não quero parecer antipático, porque não sou contra a imprensa nem contra os críticos, mas o que foi escrito sobre a novela, de uma maneira geral, ficou muito aquém do que o produto merecia.
Passione sempre foi criticada num ponto de vista óbvio e trivial. Começou com a implicância com o sotaque dos personagens italianos, que receberam elogios até no jornal La Repubblica, o mais conceituado de Milão. Quer dizer: para os próprios italianos estava certo, mas para os ditos "especialistas" do Brasil estava errado. Em quem acreditar?
Com o tempo perceberam o erro e mudaram de ideia, e aí passaram a dizer que nós tínhamos diminuído o sotaque, mas eu desafio qualquer um a assistir ao primeiro capítulo da novela. Constatará que não houve nenhuma modificação, nem de sotaque nem de número de cenas no decorrer de toda a novela.
Criticaram o que foi chamado de falta de coerência nos personagens, sem atinar que eles simplesmente não eram maniqueístas e que todos tinham dois lados, diferentemente de outras novelas em que mocinho é mocinho e bandido é bandido.
Acharam que foi um absurdo a Clara [Mariana Ximenes] ter "mudado de personalidade" e depois "voltado a ser má", sem perceber que tudo foi um jogo de espelhos e que ela nunca deixou de ser ela mesma. Enfim, foi muito decepcionante constatar que existem profissionais sem preparo, opinando e escrevendo sobre o que não entendem.
R7 - Parte da crítica reagiu muito mal ao segredo de Gerson. O crítico do UOL disse que era o caso de o telespectador procurar o Procon. O jornal O Globo o classificou de "o mico do ano". O que aconteceu? A crítica não entendeu que uma pessoa pode, sim, ter sérios problemas por gostar e ao mesmo tempo rejeitar a pornografia? O sr. faz alguma autocrítica nesse episódio?
Silvio de Abreu - Com relação aos críticos, eu já disse o que penso. É óbvio que o público iria ficar curioso para querer desvendar o segredo sexual de um personagem interpretado por um galã carismático como o Marcello Antony. Só não imaginei que esse segredo do Gerson tomasse as proporções que tomou.
A rigor, dentro da trama de Passione, isso não era nada importante, não iria modificar nada, era de caráter particular do personagem. Mas tanto se falou, tanto se especulou, que virou um elefante branco. Se eu tivesse embarcado nas expectativas do público e da imprensa, teria feito alguma coisa mirabolante, o que nem seria muito difícil de inventar, mas iria perder a coerência do meu personagem. Preferi não fazer isso. Com o trabalho concluído, tenho plena, total e absoluta certeza de que agi certo me mantendo na minha trilha.
R7 - Parte da crítica também achou muito "óbvia" a ideia do anagrama Otabol, e o ressurgimento de Totó (Tony Ramos) um replay de Belíssima. É impossível um autor se reinventar/inovar sempre?
Silvio de Abreu - A obviedade de Otabol foi prevista. Gosto quando um ruído na trama perturba o telespectador, faz com que ele se sinta mais inteligente e bem informado do que os personagens da novela. Isso o incomoda cada vez mais à medida que não se revela para os personagens o que ele já está cansado de saber.
É uma maneira de mexer com o público, de atiçá-lo. Fiz de propósito, e se os que criticaram fossem mais espertos e melhor informados sobre a maneira como eu trabalho, teriam percebido isso.
Com relação a repetir o personagem que se faz passar por morto, não tenho problemas. Assumo as repetições que faço sem o menor constrangimento e, se muitas vezes repito personagens inteiros como a Dona Armênia e o Jamanta, porque não posso repetir tramas?
Aliás, em Belíssima também não fui original nesse aspecto. Em A Próxima Vítima já tinha usado a mesma ideia com o personagem de Francesca Ferreto (Tereza Raquel).
R7 - O sr. mudou alguma coisa na novela porque a imprensa descobriu e revelou?
Silvio de Abreu - Não, não mudei nada.
R7 - Qual foi a sua reação quando as pesquisas feitas pela Globo mostraram que o público não estava digerindo bem o ritmo acelerado da novela? O sr. reduziu mesmo o ritmo? Era seu plano manter o ritmo "alucinado" até o final? Como? Teria mais história para contar?
Silvio de Abreu - Na época eu disse em entrevistas que iria diminuir o ritmo, mas não o fiz. Quem acompanhou a novela diariamente pode constatar isso.
Hoje as novelas não fazem mais sucesso instantâneo como antigamente. Cada uma tem que procurar o seu público e é um enorme exercício de paciência e confiança. A Rede Globo sabe disso e me apoiou em minha decisão de tocar para frente da maneira como eu havia imaginado, e assim foi feito.
R7 - Em 2005, Belíssima terminou com mais de 50 pontos de média no Ibope da Grande São Paulo. Hoje, a novela das oito está no patamar dos 35, embora seja disparadamente líder em seu horário e, na reta final, ultrapasse os 50. O que mudou tanto nos últimos cinco anos?
Silvio de Abreu - Não sei o suficiente para responder a esta pergunta como deveria. Existem várias teorias e a que me parece mais plausível é a de que o público assiste à novela em outros horários, pela internet ou gravado. Não sei se é verdade, mas sei que o site da novela já tem mais de 2 milhões de visitas diárias.
Com relação à repercussão da novela em todos os meios sociais e de comunicação, não vi diferença entre Belíssima com seus 50 pontos e Passione com seus, até agora, 35.
A seguir, a segunda parte de entrevista concedida com exclusividade ao blog pelo autor da Globo:
R7 - Qual foi o pior de Passione?
Silvio de Abreu - Não quero parecer antipático, porque não sou contra a imprensa nem contra os críticos, mas o que foi escrito sobre a novela, de uma maneira geral, ficou muito aquém do que o produto merecia.
Passione sempre foi criticada num ponto de vista óbvio e trivial. Começou com a implicância com o sotaque dos personagens italianos, que receberam elogios até no jornal La Repubblica, o mais conceituado de Milão. Quer dizer: para os próprios italianos estava certo, mas para os ditos "especialistas" do Brasil estava errado. Em quem acreditar?
Com o tempo perceberam o erro e mudaram de ideia, e aí passaram a dizer que nós tínhamos diminuído o sotaque, mas eu desafio qualquer um a assistir ao primeiro capítulo da novela. Constatará que não houve nenhuma modificação, nem de sotaque nem de número de cenas no decorrer de toda a novela.
Criticaram o que foi chamado de falta de coerência nos personagens, sem atinar que eles simplesmente não eram maniqueístas e que todos tinham dois lados, diferentemente de outras novelas em que mocinho é mocinho e bandido é bandido.
Acharam que foi um absurdo a Clara [Mariana Ximenes] ter "mudado de personalidade" e depois "voltado a ser má", sem perceber que tudo foi um jogo de espelhos e que ela nunca deixou de ser ela mesma. Enfim, foi muito decepcionante constatar que existem profissionais sem preparo, opinando e escrevendo sobre o que não entendem.
R7 - Parte da crítica reagiu muito mal ao segredo de Gerson. O crítico do UOL disse que era o caso de o telespectador procurar o Procon. O jornal O Globo o classificou de "o mico do ano". O que aconteceu? A crítica não entendeu que uma pessoa pode, sim, ter sérios problemas por gostar e ao mesmo tempo rejeitar a pornografia? O sr. faz alguma autocrítica nesse episódio?
Silvio de Abreu - Com relação aos críticos, eu já disse o que penso. É óbvio que o público iria ficar curioso para querer desvendar o segredo sexual de um personagem interpretado por um galã carismático como o Marcello Antony. Só não imaginei que esse segredo do Gerson tomasse as proporções que tomou.
A rigor, dentro da trama de Passione, isso não era nada importante, não iria modificar nada, era de caráter particular do personagem. Mas tanto se falou, tanto se especulou, que virou um elefante branco. Se eu tivesse embarcado nas expectativas do público e da imprensa, teria feito alguma coisa mirabolante, o que nem seria muito difícil de inventar, mas iria perder a coerência do meu personagem. Preferi não fazer isso. Com o trabalho concluído, tenho plena, total e absoluta certeza de que agi certo me mantendo na minha trilha.
R7 - Parte da crítica também achou muito "óbvia" a ideia do anagrama Otabol, e o ressurgimento de Totó (Tony Ramos) um replay de Belíssima. É impossível um autor se reinventar/inovar sempre?
Silvio de Abreu - A obviedade de Otabol foi prevista. Gosto quando um ruído na trama perturba o telespectador, faz com que ele se sinta mais inteligente e bem informado do que os personagens da novela. Isso o incomoda cada vez mais à medida que não se revela para os personagens o que ele já está cansado de saber.
É uma maneira de mexer com o público, de atiçá-lo. Fiz de propósito, e se os que criticaram fossem mais espertos e melhor informados sobre a maneira como eu trabalho, teriam percebido isso.
Com relação a repetir o personagem que se faz passar por morto, não tenho problemas. Assumo as repetições que faço sem o menor constrangimento e, se muitas vezes repito personagens inteiros como a Dona Armênia e o Jamanta, porque não posso repetir tramas?
Aliás, em Belíssima também não fui original nesse aspecto. Em A Próxima Vítima já tinha usado a mesma ideia com o personagem de Francesca Ferreto (Tereza Raquel).
R7 - O sr. mudou alguma coisa na novela porque a imprensa descobriu e revelou?
Silvio de Abreu - Não, não mudei nada.
R7 - Qual foi a sua reação quando as pesquisas feitas pela Globo mostraram que o público não estava digerindo bem o ritmo acelerado da novela? O sr. reduziu mesmo o ritmo? Era seu plano manter o ritmo "alucinado" até o final? Como? Teria mais história para contar?
Silvio de Abreu - Na época eu disse em entrevistas que iria diminuir o ritmo, mas não o fiz. Quem acompanhou a novela diariamente pode constatar isso.
Hoje as novelas não fazem mais sucesso instantâneo como antigamente. Cada uma tem que procurar o seu público e é um enorme exercício de paciência e confiança. A Rede Globo sabe disso e me apoiou em minha decisão de tocar para frente da maneira como eu havia imaginado, e assim foi feito.
R7 - Em 2005, Belíssima terminou com mais de 50 pontos de média no Ibope da Grande São Paulo. Hoje, a novela das oito está no patamar dos 35, embora seja disparadamente líder em seu horário e, na reta final, ultrapasse os 50. O que mudou tanto nos últimos cinco anos?
Silvio de Abreu - Não sei o suficiente para responder a esta pergunta como deveria. Existem várias teorias e a que me parece mais plausível é a de que o público assiste à novela em outros horários, pela internet ou gravado. Não sei se é verdade, mas sei que o site da novela já tem mais de 2 milhões de visitas diárias.
Com relação à repercussão da novela em todos os meios sociais e de comunicação, não vi diferença entre Belíssima com seus 50 pontos e Passione com seus, até agora, 35.
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